O rei leão

 

Um retrato sobre um empresário excecional

 

Às vezes, quando Noël Essers relete sobre os acontecimentos ao longo do tempo, até lhe parece que tudo é surreal. O nome da sua família em atrelados vermelhos por todo o mundo – “nunca tive a ousadia de o imaginar”. É uma airmação curiosa, citada de forma relexiva e suave. Principalmente para uma pessoa que soube sempre aonde queria chegar. Mas nesta expressão incomum, nesta contradição entre a intrepidez empresarial e a ilosoia branda, está talvez a chave para uma das carreiras mais excecionais do setor europeu dos transportes.

 

Noël Essers é o transportador com mais sucesso da Bélgica. A sua empresa, a H. Essers, tem armazéns em 15 países por todo o mundo. Ao todo, uma área de 950 000 metros quadrados. 5400 empregados e um volume de negócios de 571 milhões de Euros. Mais de 1400 camiões – todos da MAN. No Verão, a empresa de serviços belga Transportmedia nomeou-o como a “personagem transportadora dos últimos 25 anos”. E foi a escolha certa.

Mas Essers tem razão: no início, pelo menos, não era possível prever que a empresa pudesse chegar tão longe.

No começo existia apenas um camião. Era o seu pai Henri que, em 1928, o conduzia. No início da Segunda Guerra Mundial são três, mas quando esta acaba voltam à estaca zero. São tempos diíceis nos quais Noël Essers nasce, mas são também tempos que oferecem oportunidades: a empresa cresce lentamente. Para o pequeno Noël, o mais jovem de cinco crianças, cresce o desejo de um dia assumir o controlo da empresa familiar. Ele quase que cresce na empresa. “Eu acabei o ensino secundário e com 18 comecei a conduzir camiões durante três, quatro anos.” O seu desejo de assumir mais responsabilidade torna-se realidade, mas de uma forma que nunca desejou: o seu pai falece e ainda hoje a voz de Noël treme ao contar a história. Ele ainda não completou 24 anos e tem de, juntamente com o seu irmão Jules, gerir a empresa. Nesse momento, têm oito camiões. “Trabalhávamos sem pausas, sempre a partir das sete da manhã”, lembrase, “aos ins de semana na oicina, ao sábado à noite partíamos.” Eles transportavam tudo aquilo que lhes era proposto: animais, produtos agrícolas, fazem mudanças.

 

Apesar das circunstâncias, apesar dos longos e fatigantes dias – Essers tem um objetivo deinido: “eu queria fazer aquilo que eu via na Alemanha e na França.” Grandes transportadoras. Na altura, elas não existiam na Bélgica. Todas as empresas eram tão pequenas como a do seu pai. E é então que, pela primeira vez, sobressai a empresa de Essers ao alterar completamente o mercado logístico do seu país. Outros teriam primeiro de se adaptar ao novo papel, mas Noël expressa a sua pretensão ao criar um logótipo para a empresa: “haviam algumas empresas de transportes com um globo no logótipo. Eu também queria algo assim.”

Enquanto que o seu irmão é responsável pela administração e pelas inanças, Essers começa a direcionar a empresa para novos destinos. Já que as cargas completas não são rentáveis, ele altera o modo operacional e transporta cargas coletivas. Ao mesmo tempo estimula a internacionalização e, em breve, os camiões vão até à Itália. Por im, Essers entra no ramo do transporte combinado e transporta também os atrelados por via ferroviária. A empresa cresce organicamente, seguem-se as primeiras aquisições – “e tornamo-nos grandes muito depressa”.

Em 1980 passa de um fornecedor de transportes para um fornecedor de logística, já que tal permite uma maior criação de valor. “Construímos assim armazéns”, airma Essers. Nos modernos tempos da informação, eles necessitam de TI eicientes. Essers, ao contrário da concorrência, não aposta em empresas de software com soluções completas: “nós temos cinco ou seis pessoas das TI que fazem a programação das nossas próprias TI, isso sempre foi feito assim”, explica. “E foi uma grande vantagem sobre a concorrência”.

As soluções do software de logística à medida catapultam a H. Essers para a liderança das transportadoras inovadoras – mas ao mesmo tempo, a empresa entra em profunda crise: Essers é um dos primeiros a introduzir os códigos de barras nos seus armazéns. Ele trabalha durante noites juntamente com seu chefe de TI e juntos elaboram os planos para a mudança. Com este, a quem chama “o pequeno”, tem uma relação especial; ele incentiva-o, vê-se como o seu mentor. Mas depois, de um dia para o outro, o seu protegido vai-se embora, demite-se.

Para alguém que está orgulhoso no facto dos seus trabalhadores estarem décadas na sua empresa, isso é doloroso. Mas a demissão é mais do que uma deceção pessoal, já que o “pequeno” leva com ele o departamento de TI e abre a sua própria empresa. “Foi um momento muito grave, talvez o mais grave.” A situação é realmente alarmante: Essers tem já 100 000 metros quadrados de área de armazenamento e já que a mudança para códigos de barras está em curso, é impossível encontrar algo nesse espaço. Essers procura durante muito tempo por um substituto, pois o seu sistema opera com os computadores comerciais da IBM – não existem muitas pessoas que os conseguem programar. Até então, a sua logística não funciona corretamente. Uma catástrofe, “mas os meus clientes apoiaram-me”.

 

Após alterar as ti, a próxima mudança está à porta: até aos anos oitenta, a H.Essers utiliza principalmente camiões da Mercedes. “Mas depois tivemos um cliente que queria cargas com três metros de altura. Nesse tempo, a Mercedes não era capaz de tal, a MAN sim. Eles tinham o motor integrado no chassi e podiam assim construir o camião de forma tão baixa a podermos carregar cargas de três metros. Isso foi o começo da MAN.” Os camionistas gostam dos camiões, ele compra-os e, por im, toda a frota é composta por camiões MAN. “Nós tivemos sempre uma boa relação com Munique”, airma. Hoje, é um dos maiores clientes da MAN.

O próximo capítulo da H.Essers é aberto pelo seu irmão: em 1990, ele quer deixar a empresa. “Eu comecei a expandir, expandir, expandir, e ele icou com um pouco de receio”, declara Essers. “O meu irmão estava sempre a travar e eu a acelerar. Eramos uma excelente equipa, completávamo-nos. Mas ele queria sair da empresa porque era muito stressante. Essers tem assim de encontrar um novo parceiro, já que sozinho não pode comprar todas as quotas. Nessa altura possui apenas 60% da empresa; só em 2000 é que compra novamente todas as quotas. E pode agora então iniciar a desejada expansão.

 

Em 2004, ele tem 500 veículos. “Nós achávamos que não era suiciente.” Aqui está outra vez a intrepidez necessária para formar um gigante da logística, e a empresa cresce realmente muito nos próximos anos: compra uma empresa após a outra, expande para um país após o outro. Essers aposta principalmente em produtos rentáveis, tais como fármacos, elétricos ou cargas perigosas, e o volume de negócios quadruplica até 2016. A empresa de logística europeia torna-se numa corporação, com iliais no Dubai e na Argentina, faz transportes para o Afeganistão e põe mensalmente, por via ferroviária, 100 contentores a caminho da China. O mundo do logótipo da empresa – tal já não é uma visão, mas sim a descrição da realidade.

“Foi um caminho árduo”, airma Essers e, quando hoje se senta num camião MAN, é possível observar como ele toca gentilmente na cama atrás de si e airma: “é um veículo muito bonito.” É um momento muito simbólico. A paixão de quem durante toda a sua vida quis ser transportador. O entusiasmo pelos veículos com os quais cresceu. E a melancolia que surge agora, aos 73 anos de idade e ao inal de uma carreira excecional. Mas depois, rapidamente, o audacioso Essers exprime-se ilosoicamente: “Para mim, o facto dos meus ilhos trabalharem na empresa é uma grande alegria”, exprime então nesses momentos. As suas duas ilhas estão na direção da empresa. E é por isso que pode agora, de consciência tranquila, deixar o cargo de presidente.

 

A 29 de setembro, Essers teve o seu último dia como presidente da Empresa. A sua sucessora é a sua ilha Hilde. Ele pôde prepará-la bem. Durante os últimos anos, ele pôde assegurar-se que a H.Essers também iria funcionar sem a sua presença, ao contratar um CEO não-membro da família, o que lhe proporcionou novas liberdades: desde 2004 que participa no Rali Dakar e alcançou o 27º lugar de 89 possíveis já na primeira participação.

Todas as quartas-feiras, às dez da noite, encontram-se todos para trabalhar no camião de corridas da MAN. “E depois bebemos umas cervejas”, contam histórias passadas, Essers, a equipa de corridas e todos os outros companheiros de longa data. Todos têm a certeza de que, um dia, irão contar a história de como Essers, no primeiro dia de aposentado, foi de manhã cedo à empresa.

Alguém como Essers pode já não ser presidente e ter deixado a empresa. Mas a empresa nunca o irá deixar.

 

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